Ferramentas de Inteligência Artificial (IA) integram a rotina clínica de 17% dos médicos brasileiros. O dado vem da pesquisa TIC Saúde, que também identificou uso semelhante entre enfermeiros: 16% deles já trabalham com IA generativa no dia a dia. Nos Estados Unidos, um dos pioneiros do mercado, a American Medical Association aponta que 66% dos médicos utilizam dessa tecnologia na prática clínica.
Para 2026, a projeção da consultoria Deloitte é que iniciativas tecnológicas responderão por 56% da economia de custos e do crescimento de receita em sistemas de saúde. Estimativas como essa marcam uma transição entre enxergar a IA como um experimento para, agora, encará-la como parte da infraestrutura operacional.
Uso de IA levanta questões éticas
Uma das aplicações que mais avança é a chamada inteligência clínica ambiental, tecnologia que capta o áudio da consulta médica e preenche o prontuário automaticamente. Assim, as informações são registradas em tempo real.
Na prática, se um paciente chega com suspeita de doença pancreática, por exemplo, a tecnologia é usada para registrar as informações que são coletadas desde a entrevista sobre o histórico de saúde até os cuidados após a ecoendoscopia alta. Segundo a McKinsey & Company, pelo menos 10% dos médicos nos Estados Unidos já adotam essa ferramenta.
O recurso é usado para reduzir a carga administrativa dos profissionais de saúde, mas a gravação da voz de pacientes, sobretudo quando feita sem autorização, levanta questionamentos jurídicos e éticos.
Em novembro de 2025, o sistema de saúde Sharp HealthCare, na Califórnia, foi alvo de uma ação coletiva que alega gravação de consultas médicas sem o consentimento adequado dos pacientes. O processo estima que mais de 100 mil atendimentos podem ter sido registrados desde a implantação da tecnologia, em abril do ano passado.
Outro levantamento, este da Afya, aponta que 63% dos médicos recorrem a ferramentas como o ChatGPT para apoiar a produção de documentos e pesquisas. Essa prática, porém, é outra que também levanta preocupações sobre segurança e governança quando ocorre fora dos sistemas institucionais.
Entre as questões mais frequentes nas consultas estão dúvidas técnicas sobre exames: “qual é a duração de jejum
Esse fenômeno foi batizado de “shadow AI”, ou “IA sombra”. Ele designa o uso de ferramentas de IA da supervisão institucional, quando profissionais recorrem a plataformas públicas como o ChatGPT para auxiliar em diagnósticos ou relatórios sem o conhecimento dos departamentos de tecnologia.
Os próprios médicos expressam preocupação com o uso inadequado de ferramentas de IA, como relatam 34% dos profissionais entrevistados pelo Panorama da Saúde Digital 2025, conduzido pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br).
De acordo com informações do próprio ChatGPT, entre as questões de saúde mais comuns levantadas na ferramenta estão dúvidas sobre preparos e procedimentos de exames. “Qual é a duração do jejum? Pode beber água?”; “É necessário suspender medicamentos de uso contínuo?”; “Ressonância magnética precisa de contraste?”; “Como é feito o exame de PET-CT?”; “A colonoscopia é dolorosa?”, entre outras dúvidas.
Sistemas já fazem triagem e marcam consultas sozinhos
Para além da IA que gera textos e análises, os chamados agentes de IA são apontados como marco para 2026. Diferente dos chatbots tradicionais, esses sistemas executam tarefas complexas de forma autônoma, como triagem de pacientes, agendamento de consultas e gestão de fluxos administrativos.
Executivos de saúde esperam alocar 19% de seus orçamentos de tecnologia especificamente para IA generativa e agentiva no próximo ano, conforme pesquisa da Deloitte. A alocação coloca essas ferramentas entre as prioridades de investimento do setor.
Brasil aguarda marco legal
Mais de mil ferramentas impulsionadas por IA já receberam autorização nos Estados Unidos, segundo dados da Philips. A maioria das aprovações se concentra em diagnóstico por imagem, área que lidera a adoção da tecnologia entre as especialidades médicas.
No Brasil, o Panorama da Saúde Digital 2025 indica que as principais barreiras estão relacionadas à qualidade dos dados e à falta de regulação específica para IA em saúde, com expectativa de avanços a partir da tramitação do Projeto de Lei nº 2338/2023.
Mercado em números
O mercado global de IA na saúde deve saltar de US$ 39 bilhões em 2025 para US$ 504 bilhões até 2032, segundo a Deloitte. Em paralelo, as projeções da Wolters Kluwer indicam que o mercado de tecnologia digital em saúde ultrapassará US$ 300 bilhões já em 2026.
Nacionalmente, o Plano Brasileiro de IA (PBIA) 2024-2028 destina R$ 23 bilhões para pesquisa e desenvolvimento, com previsão de aquisição de um supercomputador de alta performance. O programa é tutelado pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia.
Os recursos privados também fluem para o setor. Na América Latina, o investimento em startups de saúde alcançou US$ 253,7 milhões em 2024, crescimento de 37,6% em relação ao ano anterior, segundo dados da consultoria Distrito e da Associação Brasileira de Startups de Saúde. O Brasil concentra quase 65% dessas empresas na região.
